Editorial / Estadão
Pesquisa recente do Datafolha revelou que o principal objetivo do brasileiro para 2026 é conseguir guardar dinheiro. Para 44% dos entrevistados pelo instituto, economizar é a grande meta para o novo ano, à frente de outras prioridades como passar mais tempo com a família e amigos (37%) e iniciar uma atividade física (25%).
A grande prioridade da população para este ano está fortemente relacionada ao estado de aperto financeiro dos cidadãos do País.
De acordo com o Banco Central, o endividamento das famílias em outubro situou-se em 49,3%, maior nível desde novembro de 2022. Já o comprometimento de renda dos lares brasileiros em outubro atingiu 29,4%, o maior patamar da série histórica iniciada em 2011.
Por comprometimento entende-se o quanto da renda mensal de uma família já está destinado ao pagamento de dívidas, por exemplo. O maior comprometimento de renda captado pelo Banco Central ocorre em um momento de juros elevados e de grande disponibilidade de crédito.
É verdade que o estoque de crédito do Sistema Financeiro Nacional (SFN) vem desacelerando, mas em ritmo lento. A expansão no período de 12 meses encerrado em novembro foi de 9,5%, ainda bastante elevada.
O estímulo ao crédito é uma das marcas das gestões petistas, para quem tudo o que a população mais deseja é gastar como se não houvesse amanhã.
Os dados divulgados pelo Banco Central, porém, deveriam acender, ao menos, um sinal amarelo, uma vez que a economia já está desaquecendo por conta do choque de juros promovido pela autoridade monetária para conter a inflação.
Lentamente, a Selic a 15% ao ano vem trazendo a inflação para baixo, mas ainda muito perto do teto da meta de 4,5%. Com juros em patamar tão elevado, a atividade econômica vem perdendo força, como era de se esperar. É o preço que se paga para conter a sanha gastadora da gestão petista.
Nesse contexto, a pujança do mercado de trabalho também tende a perder força. É ilusório acreditar que os níveis elevados de emprego formal se manterão ao longo dos próximos meses. Além disso, apesar de vir batendo recordes nos últimos trimestres, a renda média da população (R$ 3.528 em outubro) ainda é muito baixa.
Tudo somado, os recordes de renda do trabalho assalariado e do mercado de trabalho não exatamente têm trazido alívio ao bolso da população, que se vê mais endividada mesmo em um cenário pintado como róseo pelo governo.
Não é à toa que o grande desejo dos brasileiros para este ano seja economizar, tarefa que o próprio governo torna mais complicada, uma vez que tudo que a gestão petista faz é criar novas linhas de crédito consignado e direcionado. Mesmo que as taxas dessas modalidades tendam a ser mais baixas, elas também se encontram bastante altas.
Infelizmente, para o brasileiro esperançoso de uma vida financeira mais leve em 2026, o cenário não é lá muito alentador. Ainda que a tendência para a Selic seja de queda, os juros devem seguir acima dos dois dígitos, uma má notícia para famílias com a renda comprometida em uma economia que perde vigor.
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