sábado, 23 de janeiro de 2021

A PANDEMIA TEM UM CULPADO: A CHINA

Só se fala do coronavírus, mas já estou pensando na próxima pandemia e em como lidar com ela. Isso porque, num mundo cada vez mais interligado, pode ter certeza que haverá outra. E de onde virá? Não sabemos, mas podemos especular, olhando para as origens das anteriores: a gripe de 1958 veio da China, a gripe de 1968 veio da China, em 2002 o Sars veio da China, a gripe suína de 2009 provavelmente veio da China, e agora o Covid-19 veio da China.

“NÃO PODEMOS SOLUCIONAR O PROBLEMA DE PANDEMIAS SEM A PARTICIPAÇÃO DO REGIME AUTORITÁRIO QUE GOVERNA 20% DA HUMANIDADE”

Só que o Partido Comunista, que acha que não precisa prestar contas a ninguém, tem adotado uma postura beligerante — veja o que aconteceu quando Eduardo Bolsonaro ousou dizer algumas verdades nuas e cruas — e não coopera com o resto do mundo. No mês passado, reclamei da resistência dos chineses em colaborar com a OMS e as demais agências especializadas. Agora a situação mudou, mas não muito: dados começaram a fluir, mas, como sempre na China, parecem maquiados, não são confiáveis, e a presença de estudiosos independentes continua severamente restrita. Mesmo assim, o diretor da OMS tem proferido elogios pelas parcas informações, com medo de ofender os chineses e ter a porta fechada novamente.

Como é praxe nas ditaduras, a reação oficial à crise, inicialmente muito lenta, pulou de 8 a 80. Depois de fingir durante dois meses que nada estava errado, o governo decretou uma série de medidas drásticas: milhões em quarentena obrigatória, a construção de novos hospitais em apenas dez dias e censura ainda mais ferrenha da internet, borrando qualquer crítica do descaso inicial e impossibilitando a troca de informações entre populares e governantes. Como o presidente da Câmara Europeia de Comércio em Pequim declarou ao New York Times , “a caixa de ferramentas dos chineses parece ter nada mais que martelos”.

Pior ainda, defensores do regime têm sustentado que as críticas ao país e à maneira como a crise foi enfrentada lá são racistas. Não são. Ninguém está reprovando Taiwan, Hong Kong ou Cingapura — a maioria de seus cidadãos também têm ascendência chinesa — pelas políticas de seus governos. Não, o alvo é apenas a República Popular da China (RPC) — que de “república” ou “popular” não tem nada.

Há várias outras incoerências na resposta da RPC que devem preocupar a todos nós. Depois de condenar medidas de outros países para evitar que o vírus se alastre — evacuação de estrangeiros de Wuhan, proibições à entrada de chineses — como alarmismo indevido, a China tomou as mesmas providências assim que o número de casos lá começou a cair. Ao mesmo tempo, lançou uma campanha para semear dúvidas sobre as origens do vírus: um porta-voz da chancelaria declarou que na verdade ninguém tem certeza de onde veio o vírus, e no dia 12 outro, usando um aplicativo bloqueado na China, tuitou que “talvez tenha sido o Exército Americano que trouxe o vírus a Wuhan” e que Washington “nos deve uma explicação!”.

Mas, enquanto Donald Trump e Jair Bolsonaro sofrem críticas duras (e justificadas) por terem atrapalhado a resposta de seus governos, a televisão estatal chinesa (não existe outra) mostra famílias em quarentena, em cenas claramente encenadas, aplaudindo de suas janelas o máximo líder, o infalível Xi Jinping — o principal responsável pela propagação mundial da doença. E, com a crise aparentemente começando a minguar, o aparelho de propaganda passou, inclusive, a exigir o agradecimento do resto do mundo à China, que “sozinha, com sua própria força, barrou decididamente a epidemia”. É muita cara de pau.

Na verdade, se existe racismo, é por parte dos próprios chineses. Em 1982, fui direto do Rio de Janeiro para ser correspondente em Pequim e senti na pele a xenofobia e o desprezo que infectam a sociedade chinesa. Brasil e Estados Unidos são países pluralistas, uma “geleia geral”, para roubar a frase genial de Gilberto Gil, de várias raças, etnias, povos e religiões. A China não: de seu 1,4 bilhão de habitantes, 92% são da etnia han, ensinados a pensar que, como detentores de uma civilização de 5 mil anos, são superiores aos demais. Na rua, os poucos negros foram rotineiramente chamados de “macacos”, os japoneses de “bárbaros peludos” e os brancos de “yangguidz”, ou “demônios-fantasmas de além-mar”.


A China tem o direito de se governar do jeito que quiser. Mas não pode, de jeito nenhum, brincar com a saúde do resto do mundo só para proteger os interesses de uma elite que acha que todo mundo que não é han é inferior. Aí está o grande perigo. O Covid-19 vai passar. A prepotência da RPC, não.

Larry Rohter, jornalista e escritor, é ex-correspondente do “New York Times” no Brasil e autor de “Rondon, uma biografia”

Matéria da Época publicada em 20/03/2020

https://epoca.globo.com/larry-rohter/a-pandemia-tem-um-culpado-china-1-24315628






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