Editorial Estadão
A recente onda de manifestações que varreu o Irã já entrou para a História. Não só por sua magnitude social e geográfica, mas pela bestialidade da repressão. O que começou como revolta contra a inflação, o desemprego e o colapso da moeda iraniana, o rial, explodiu num confronto massivo contra o regime dos aiatolás. Como nunca desde a Revolução Islâmica de 1979, slogans contra o governo agitaram de bazares a cidades periféricas, atravessando classes, regiões e gerações. A retaliação foi selvagem: apagão informacional, terror indiscriminado e massacres.
O governo admite mais de 3 mil mortos. Organizações de direitos humanos, redes médicas e investigações independentes operam com estimativas que vão de 10 mil a mais de 40 mil, possivelmente a maior carnificina de manifestantes do século. A incerteza não decorre de exagero retórico, mas do método xiita: internet bloqueada, hospitais intimidados, registros adulterados, cadáveres sepultados às pressas, famílias coagidas ao silêncio. A opacidade não é efeito colateral da repressão; é um de seus instrumentos cruciais.
Há relatos de incursões noturnas em residências, disparos à queima-roupa contra feridos em hospitais, uso sistemático de tiros na cabeça e nos olhos e extorsão para a devolução de corpos. Não se trata de excessos episódicos de emissários locais, mas de um comando do topo: esmagar a dissidência pelo pavor absoluto. Quando se sente ameaçado, o regime não hesita nem negocia – extermina. E a escala do extermínio expõe o tamanho da ameaça.
Nada disso autoriza previsões fáceis. Apesar da magnitude do levante, o sistema ainda não ruiu. A Guarda Revolucionária, ao que parece, permanece coesa, e o aparato repressivo, funcional. A oposição segue fragmentada. A resistência no exílio carece de concatenação e capilaridade. Os clamores por Reza Pahlavi – o herdeiro do xá derrubado pela Revolução Islâmica – expressam menos a nostalgia de um passado monárquico do que o desespero de quem procura qualquer alternativa a um regime que já não governa, só domina.
Externamente, o cenário é ambivalente. Washington ameaça, mas hesita. Sanções se acumulam, com efeitos devastadores sobre a população e eficácia limitada sobre os núcleos do poder. Países do Golfo evitam ser arrastados a um conflito aberto. O resultado é um impasse agoniante: pressão suficiente para agravar a crise econômica e social, mas insuficiente para precipitar uma mudança política rápida. O regime pode sobreviver, mas mais isolado, mais instável e mais truculento.
Sobre esse teatro de horrores pesa um silêncio ensurdecedor. As militâncias progressistas que inundaram ruas, universidades, redações e redes sociais com denúncias incendiárias contra Israel mal balbuciam diante do massacre iraniano. Onde estão os protestos, os boicotes, as vigílias? A indignação que atravessava oceanos – do exibicionismo fútil de ativistas como Greta Thunberg às acusações superlativas de governantes como Luiz Inácio Lula da Silva – já murchara desde que, após o recuo de Israel em Gaza, o Hamas – uma das milícias jihadistas patrocinadas por Teerã – recobrou seu reino do terror sobre os palestinos. Agora, evapora-se ante uma multidão de jovens, mulheres e trabalhadores iranianos trucidados. Será possível que toda aquela fúria não era, no fim das contas, sobre “direitos humanos”?
O governo iraniano é uma besta ferida que reage com brutalidade crescente. A repressão pode ter sufocado esta rodada de protestos, mas aprofundou de forma irreversível o fosso entre regime e sociedade. Não há retorno ao “normal”. Há apenas a escolha entre reformas reais – cada vez mais improváveis – ou a decomposição de uma teocracia que já não consegue oferecer qualquer vestígio de legitimidade, prosperidade ou esperança.
Não há atalhos edificantes nem desfechos limpos à vista. Mas fechar os olhos, relativizar o horror ou tratar o massacre como detalhe geopolítico é abdicar do mínimo critério moral. O certo é que, ao tentar dar uma demonstração de força, o governo expôs sua fraqueza e seu medo. Um regime que precisa assassinar milhares para sobreviver já confessou sua falência. Ainda que não se saiba quando o colapso terminará, ele já começou.
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