Ao menos quatro em cada dez brasileiros com 16 anos ou mais – o equivalente a 68,7 milhões de pessoas – reconhecem a presença, no bairro em que moram, de grupos organizados ligados ao tráfico ou a milícias, segundo estudo divulgado neste domingo, 10, pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP) em parceria com o Instituto Datafolha.
“É um dado muito impactante, porque demonstra um pouco da difusão da criminalidade no território”, afirma Samira Bueno, diretora-executiva do Fórum. Ela destaca que trata-se de um fenômeno muito mais presente em capitais, onde mais de 55% dos entrevistados se disseram afetados, até pela presença estratégica do crime organizado nessas cidades.
Ainda assim, ressalta que um terço da população do interior (34,1%) também é impactada com esse tipo de atuação. Atualmente, regiões como a de Rio Claro, no interior de São Paulo, têm sofrido com a escalada da violência armada. Por lá, especificamente, chamam atenção disputas entre o PCC, principal força do Estado, com o Comando Vermelho (CV), segunda maior facção do País.
Como mostrou o Estadão neste ano, a facção carioca absorveu alguns dissidentes e desafetos do PCC após disputas na cidade e passou a cometer execuções em série nos últimos anos, inclusive com espécies de “bate-volta do crime”. A organização criminosa paulista tem revidado. Nos últimos cinco anos, foram ao menos 30 mortes relacionadas às disputas, segundo as autoridades policiais.
“Hoje a violência é muito mais difusa no território. Quando a gente produzia estatísticas de mortes violentas há 10 anos, 15 anos, havia uma concentração muito maior em grandes cidades, em capitais, regiões metropolitanas”, diz Samira. “Especialmente a partir de 2016, quando tem o racha entre o Comando Vermelho e o PCC, esses grupos passam a atuar em municípios cada vez mais distantes de capitais e regiões metropolitanas.”
A pesquisadora cita como exemplo a região da Amazônia, que também reúne cidades com altos índices de assassinato, em especial na região de fronteira. Dominada pelo CV, a região é vista como estratégia para importação de cocaína de países como Peru e Colômbia. Não à toa, o PCC tem buscado aumentar a presença por lá, como também vem mostrando o Estadão ao longo dos últimos anos.
“É evidente que a percepção da presença de organizações criminosas no bairro deve ser interpretada com cautela, porque é difícil mensurar, apenas a partir da resposta do entrevistado, a intensidade dessa atuação e o grau de ostensividade com que ela se manifesta”, afirmam os pesquisadores no estudo.
Em alguns casos, ponderam, a população pode estar se referindo a grupos locais menores, como gangues envolvidas com o comércio varejista de drogas, cuja atuação é percebida no cotidiano por meio de pontos de venda de drogas e, eventualmente, pela circulação de pessoas armadas.
“Em outros, porém, essa resposta pode remeter a contextos de presença mais explícita e estruturada de facções ou milícias, com controle territorial armado mais visível, com a presença de barricadas para impedir a entrada da polícia, imposição de regras sobre horários e circulação e restrição do ir e vir”, continuam.
O estudo aponta que 43,4% daqueles que notam a presença de grupos criminosos nos bairros em que vivem a atribuem como pouco visível, enquanto outros 9% afirmam ser nada visível. Ao mesmo tempo, 25,3% e 21,1% dos entrevistados assinalaram, respectivamente, que a atuação de grupos criminosos, como o PCC ou o Comando Vermelho, é “muito visível” ou “visível” onde moram.
Segundo os pesquisadores, para qualquer um dos casos, o dado central é que a presença percebida dessas organizações aparece como “um fator relevante de ordenamento social e de produção de insegurança, interferindo diretamente no cotidiano, nos comportamentos e nas liberdades da população”.
Entre os efeitos práticos disso, a pesquisa aponta que 81% dos que notam a presença de grupos criminosos afirmam ter medo de ficar no meio de confrontos armados. Paralelamente, três quartos (74,9%) evitam frequentar determinados locais e 71,1% têm medo de ter familiares envolvidos com o tráfico.
“O crime sempre existiu em todo o País, mas o fato é que, com a chegada de Comando Vermelho e PCC em territórios em que antes se tinha gangues, grupos criminosos que não eram tão profissionais, isso muda a relação das pessoas e o contato que elas têm com a violência”, afirma Samira. O resultado é a difusão de ações para controle territorial armado, como as observadas em comunidades do Rio, reduto do Comando Vermelho.
O estudo “Medo do Crime e Eleições 2026: Os Gatilhos da Insegurança”, encomendado pelo FBSP ao Instituto Datafolha, foi realizado entre os dias 9 e 10 de março deste ano, com a expectativa de captar não só a vitimização da população, mas também as modalidades de crime que, em geral, são mais recorrentes quando se fala de medo.
A pesquisa divulgada neste domingo utilizou metodologia quantitativa por meio de entrevistas pessoais. Os entrevistados foram abordados em pontos de fluxo populacional, distribuídos geograficamente nas áreas pesquisadas.
O estudo teve abrangência nacional, incluindo regiões metropolitanas e cidades do interior de diferentes portes, em todas as regiões do Brasil, em 137 municípios. A pesquisa foi realizada com a população brasileira, de 16 anos ou mais. A margem de erro para o total da amostra é de 2 pontos para mais ou para menos, considerando um nível de confiança de 95%. A amostra total foi de 2.004 entrevistas.
Segundo Renato Sérgio de Lima, diretor-presidente do FBSP, um dos objetivos do estudo foi tentar orientar um debate eleitoral mais programático. “A gente não está falando aqui de proposta para cada um dos problemas apontados, mas em indicar quais são os fenômenos que deveriam ser priorizados pelo poder público e pelos futuros candidatos, seja a governos estaduais ou ao governo federal, do ponto de vista de uma política de segurança”, diz.
O lançamento ocorre em meio a um momento de protagonismo da segurança pública. O governo federal vai lançar na próxima terça-feira, 12, um plano de combate ao crime organizado. As ações preveem um investimento de R$ 960 milhões ainda neste ano. Na última semana, o tema também foi um dos assuntos da conversa do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) com Donald Trump, nos Estados Unidos.
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