terça-feira, 26 de maio de 2026

Moraes, Ciro, Motta e os jatinhos dos amigos

Polícia Federal investigava – investiga ainda – a prática de contrabando por meio do avião do empresário Fernando Oliveira Lima, descobertos então, entre os dezesseis viajantes do voo em xeque, Hugo Motta e Ciro Nogueira. A notícia é de 28 de abril deste ano. O episódio, de 20 de abril de 2025. Motta já presidia a Câmara. Voltavam da ilha de São Martinho, no Caribe, paraíso fiscal e dos cassinos. Desembarcaram num aeroporto executivo em São Paulo, ocasião em que o piloto da aeronave entraria no país sem submeter cinco bagagens ao raio-x. Ninguém sabe o que havia nos volumes.

Sabido – assim atribuído e já consagrado – que as malas eram do comandante, condição em que viajava com mais pertences que os passageiros. Eram dele – admitiu. Foi ele a passar com as peças por fora. Os demais cumpriram o procedimento padrão. Sabido também que Fernando Oliveira Lima é Fernandin OIG, operador de jogatina, outrora objeto da CPI das Bets no Senado – lá onde tinha suplência eloquente o senador Nogueira – e cuja prosperidade dos tigrinhos depende do Congresso. Também estavam a bordo os deputados, líderes de seus partidos, Doutor Luizinho e Isnaldo Bulhões. O piloto é funcionário do empresário.

Segundo a PF, não haveria “como descartar a possibilidade de envolvimento de um ou mais passageiros detentores de prerrogativa de foro nos delitos sob apuração (…)”, razão por que a investigação chegara ao STF. Na semana passada, Alexandre de Moraes considerou não haver suspeitas contra os parlamentares e determinou que o caso voltasse à primeira instância, acolhido o parecer da Procuradoria-Geral da República, comandada por Paulo Gonet.

Não há delito em legisladores viajarem em jatinhos cujos proprietários têm interesses no Parlamento. (Ciro Nogueira voaria novamente com Fernandin, para a França, em 22 de maio daquele mesmo 25.) E não seria Moraes a ver algum problema nessa prática. (Nunes Marques foi para a festa do cantor Gusttavo Lima, na Grécia, em 2024, em avião do empresário.) Tampouco haverá problema em Gonet dividir a mesa do bar com Moraes e Motta – uísque e charuto pagos por Daniel Vorcaro. Foi em Londres, em abril de 2024. Ninguém pode dizer que a confraria condicione atos (ou omissões) institucionais.

Citado Vorcaro, esse fazedor de amigos, lembremos de mensagem do banqueiro à noiva: “Acabou chegando hugo e ciro aqui para falarem com alexandre”. Era 20 de março de 2025, exato mês antes do desembarque investigado. Ninguém sabe se “hugo” seria o Motta; se “ciro”, o Nogueira; se “alexandre”, o de Moraes. Ainda que fossem, não há delito em o presidente da Câmara e o presidente de partido encontrarem-se com ministro do Supremo na casa do banqueiro que negociava com o banco estatal do Distrito Federal – o memorando de entendimento para a compra do Master pelo BRB seria anunciado em 28 de março.

Estadão 

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