Gazeta do Povo – O relatório final da Comissão Parlamentar de Inquérito do Crime Organizado, que acabou rejeitado por seis votos a quatro após uma manobra do governo na noite de terça-feira (14), descreveu uma das etapas mais sofisticadas de infiltração nas instituições brasileiras, sobretudo as relações do banqueiro Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, acusado de montar um “arsenal de instrumentos de cooptação” para garantir uma rede de proteção que atravessava os três Poderes da República.
O documento foi apresentado pelo relator da CPI, senador Alessandro Vieira (MDB-SE). A Gazeta do Povo procurou a defesa de Vorcaro, mas até a publicação da reportagem não obteve retorno. O espaço segue aberto.
Um dos pilares da estratégia dos convescotes, segundo o documento de 221 páginas, era a organização sistemática de festas privadas e eventos de altíssimo luxo voltados exclusivamente para autoridades, o que indica ser um modelo de negócios de Vorcaro.
Em mensagens trocadas com sua então noiva, Martha Graeff, interceptadas pela Polícia Federal e que constam no relatório da CPI, o próprio banqueiro admitia que a realização dessas festas não era um passatempo, mas parte de seu “business“. Ou seja, encontro de negócios.
Ao longo de sua trajetória como comandante do grupo financeiro, Vorcaro teria organizado cerca de 300 eventos desse tipo, segundo o relatório da CPI, todos desenhados para estabelecer vínculos de proximidade e dependência com e entre figuras-chave de diferentes poderes do Estado.
O relatório fala que o esforço de captura institucional ficou em registros contábeis e fiscais analisados pela CPI. Segundo apurações da Polícia Federal, apenas no ano de 2024, os gastos de Daniel Vorcaro com eventos e mimos para autoridades atingiram a marca astronômica de US$ 11,5 milhões, o que equivale a aproximadamente R$ 60 milhões na cotação da época.
Segundo o relator, há evidências de que os recursos não apenas financiavam o entretenimento, mas serviam para lubrificar as engrenagens de um sistema que buscava impunidade e favorecimento regulatório.
O relatório destaca que o volume desses repasses e festas cresceu de forma substancial no triênio 2023-2025, justamente o período em que o banqueiro mais necessitava de “proteção política” para viabilizar a venda de ativos e escapar do cerco das autoridades investigativas.
Cine Trancoso tinha protocolo de sigilo e recrutamento internacional de mulheres
O capítulo mais sombrio das festas de Vorcaro se refere aos encontros realizados em uma casa de veraneio no sul da Bahia, em Trancoso, que ficou conhecido como “Cine Trancoso”. Ele ganhou destaque no relatório de Alessandro Vieira. De acordo com documentos da Polícia Federal entregues ao STF e compartilhados com a CPI, esses eventos eram descritos como reuniões destinadas a um “grupo restrito de autoridades”.
A logística do “Cine Trancoso” envolvia o recrutamento e o transporte, custeados pelo banqueiro, de mulheres estrangeiras provenientes de diversos países, incluindo Rússia, Ucrânia, Lituânia, Suíça, Noruega, Suécia, Holanda, México e Venezuela.
Segundo os investigadores, a escolha deliberada por mulheres de fora do Brasil não era apenas estética, mas estratégica: o objetivo era garantir que as convidadas não reconhecessem as altas autoridades brasileiras presentes, reduzindo o risco de vazamentos ou identificação dos participantes em escândalos futuros.
Para manter a blindagem total desses encontros, Vorcaro teria imposto protocolos rígidos de segurança. Todos os participantes eram obrigados a deixar seus aparelhos celulares desligados, sob a guarda de seguranças particulares da organização.
Enquanto as autoridades eram privadas de seus meios de comunicação para garantir o sigilo, Vorcaro mantinha na residência, ainda segundo o relator, um circuito interno de câmeras que registrava tudo o que ocorria.
Na visão do relator da CPI, esse sistema permitia que ele mantivesse registros de todos os presentes, criando um potencial e perigoso mecanismo de controle ou chantagem sobre os agentes públicos cooptados. O relatório não menciona nomes de possíveis autoridades frequentadoras desses eventos.
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